16 de fev de 2011

Piratas e Bruxas - parte V

Onde deixaremos Anyta?

Ringo começou a ensinar truques ao papagaio. A ave dançava sempre que ele cantava uma música, balançando a cabeça e movendo as patas alternadamente. Horáculo parou ao lado deles e começou a rir. o grego Horáculo era um armário de tão enorme, mas de um senso de humor inigualável ao de qualquer um da tripulação. Estava sempre rindo. deu um tapinha nas costas de Ringo: “Podes fazer dinheiro com este animal”. E saiu assoviando.

***

Enquanto isso, na cabine do Capitão Smy, Anyta andava inquieta. Smy estava a ler um livro, mas a impaciência da mulher o desconcentrava.

- O que tem, Anyta?

- Não gosto de não saber o que será de mim, Smy. Não posso voltar à França! O que farei?

- Acalme-se - disse o pirata a puxando para junto dele - você fica muito mais bonita quando sorri. Vamos achar um lugar para você ficar. Um país distante, com uma paisagem linda. E deixo com você um pouco de ouro. Não irá ficar mal.

- Mas ficarei sozinha. Em um país desconhecido.

- Logo, fará amigos. Anyta, ninguém poderia estar...

- Eu sei, Hititée

- Não... Aqui, eu sou Smy, princesa.

- Hittiée... Estamos só nós dois. Você é Smy para este bando de marmanjos aí fora. Por que eu não posso ficar? Eu já lhe agradeci por ter me salvado, mas eu quria lhe retribuir à altura. Deixe-me ficar: eu posso ajudar.

- O que uma mulher...

- Não fale assim, Hittiée! Sabe que eu sei trabalhar e muito bem!

- Ora, Anyta. Não há condições! Isto aqui é um barco pirata. Nós saqueamos, roubamos, matamos, Anyta. Não é um lugar para uma princesa como você. As mulheres devem ficar protegidas. Foi para isso que lhe tirei da França, para lhe proteger. Se você ficar conosco, estará exposta novamente a todos os tipos de riscos. Confie em mim. Você vai começar uma nova vida. E, de tempos em tempos, voltarei para ver como está.

Anyta não respondeu que sim nem que não. E ficou abraçada ao pirata enquanto as ondas batiam no casco do navio. Chegava a noite no convés do Zeppelin. 

***

Voltaram ao Caribe e Smy pediu que Sabath o levasse até a sua “amiga que trabalhava na taverna”. O capitão apresentou Anyta à Alanie e pediu para que a garota de Sabath falasse com o dono da taverna para empregar Anyta até que a francesa se estabelecesse. Com uma gorjeta, o dono da taverna se convenceu e deixou que Anyta ficasse. Smy disse a ela que, se não gostasse do serviço na taverna, o que não faltava no caribe eram casas semelhantes à de Madame Sinclaire. “Um pouco menos elegantes, é claro”, acrescentou Pierre. E assim o Zeppelin partiu novamente. Deixando Anyta em sua nova vida. Longe do frio e dos padres franceses.

10 de fev de 2011

Piratas e Bruxas - Parte IV


O encontro com o padre
Frei Agostino examinava os candelabros quando um padre entrou pela porta da igreja. Faltavam duas horas para a missa. Agostino olhou o rosto do padre, mas não o reconheceu. Corcunda, com os olhos parados, esperou que o homem chegasse ao altar, onde Agostino terminava de roer uma fatia de cebola. O padre que entrava tinha uma barba rala e os olhos assustados:
- Bom dia, frei Agostino - disse beijando-lhe a mão.
- Bom dia. Quem és? De onde vens?
- Oh! Sou padre Giácomo Mazinni. Venho de Roma em nome de Vossa Santidade, o Papa.
- Não sabia que o Papa estava enviando padres à França.
- Sim. Veja que estamos passando por tempos difíceis com essas bruxas soltas por aí...
- Vá de retro! - gritou Agostino - Que de bruxas não sei nada e quero distância!
- E eu também, frei. Por isso, vim tratar de exterminá-las. Veja que, na abadia de San Luigi, tive aulas de exorcismo. Bom, mas vim junto a meu mestre, o qual ficou na floresta, pois foi acometido de nefastas dores intestinais.
- Oh! Deus o proteja!
- De modo que, meu mestre é inquisidor e você deve conhecê-lo: chama-se Antero de Casale.
- Sim! Casale! Ele está aqui? Em Sacrée Gardien?
- O próprio! Mas, antes de vir visitá-lo - porque soubemos que é muito importante na cidade - precisamos de uma pista sobre Anyta D’Antaire. E, depois de acharmos questa moça, serviremos ao senhor uma bela ceia no castelo de Avignon, onde estamos hospedados.
- Oh! Santíssimo! Imaginem eu no castelo de Avignon com Antero de Casale! Pois bem, rapaz: digo a você o mesmo que disse aos inquisidores da santa cruzada que saíram daqui. No livro de magias de Anyta - que foi capturado em sua casa de bruxarias - tinha um escrito semelhante a este - e Agostino entregou ao padre Giácomo uma folha manuscrita, com um parágrafo em latim.
- Ora! Mas está em latim!
- Ora! E você por acaso não sabe latim? Não é um padre?
- Não, digo, sim! É que... Apenas me surpreende que bruxarias estejam em latim. Esperava alguma coisa talvez em árabe. Mas obrigada, frei Agostino. Assim que cumprirmos nossa missão, meu próprio mestre Antero de Casale virá lhe buscar para a ceia em Avignon. Passar bem. Fique com Deus.
E o padre saiu às pressas com a folha em latim. Chegando à floresta, Giácomo Mazinni tirou a batina, vestiu sua roupa de pirata e voltou a ser Donatello. Correu para a cidade vizinha, onde os homens lhe esperavam em um bar no porto. Chegando lá, Done disse para Lucky trazer seu livro de latim.
- Agora, traduz isso - disse Donatello. O texto era curto, mas difícil de compreender.
- O que diz aqui é algo como: “quando o sol sair do horizonte, e for treze dias do mês que soma dois, uma esfera de prata cruzará o horizonte destruindo as chamas do santo ofício. Na floresta dos demônios, todas as bruxas serão livres e o mundo conhecerá o dia que não amanheceu”.
- Que estranho... - observou Smy.
- É muito simples - disse Ringo - Aí diz que, no dia 13 de novembro, quando o sol entrar e a lua cruzar o céu, as bruxas estarão na floresta para alguma coisa!
- Que bela pista! Você me assusta, Ringo! - disse Smy - Isso não diz nada. Isso não é pista nenhuma. Anyta não se esconderia na floresta por um simples motivo: sempre morreu de medo de bichos, insetos e cobras. Ontem, lembrei de um lugar, onde íamos quando éramos pequenos, em Saint Louis. E é para lá que vamos. Vai levar um dia, mas valerá a pena. Vamos pelo mar, pois lá não há porto e amarraremos o Zeppelin nas árvores da costa.
***

Um dia depois, chegando a Saint Louis, no cemitério de navios, Smy encontrou alguma coisa, mas não exatamente o que procurava: uma corrente que Anyta sempre usava no pescoço. Teria ficado feliz se perto dela não tivesse achado uma tocha igual à que os inquisoidores estavam na floresta de Sacrée Gardien.
- Eles a pegaram, homens! Acharam-na antes de nós!
- Mas não faz muito tempo, capitão. A tocha está com essa parte ainda morna.
- Eles devem ir por terra. A fogueira, como disse Sinclaire, fica na praça de Gardien. Donatello disse que, antes de queimar, as bruxas passam pelo julgamento. Talvez, tenhamos tempo. Vamos, homens! De volta ao barco.
Mais um dia de viagem e o Zeppelin atracou no porto de Sacrée Gardien. Na praça, pessoas se amontoavam em volta de uma grande cruz. Nela, uma mulher estava sendo amarrada. Smy reconheceu Anyta de longe e começou a dar ordens.
Cinco homens com armas trataram de afastar a multidão. Do navio, Lenn disparou duas balas de canhão e o resto da multidão dispersou. Os padres tentavam impedir que chegassem próximo à Anyta, mas a espada os tratou de fazer correr para longe. Quando libertou Anyta, Zaragoza sentiu que um dos padres vinha em sua direção com a tocha. Mas a espada de Ringo acertou o sacerdote no meio do peito. Anyta correu com os piratas para o Zeppelin. E partiram sem olhar para trás. Smy colocou a mão no ombro de Lenn:
- Sossegue estes canhões. Lembre-se que é a minha cidade que está destruindo. O que queríamos já está no barco.

Piratas e Bruxas - Parte III



Pistas de Madame Sinclaire

A casa de Madame Sinclaire estava praticamente invisível sob a névoa. Pierre, Smy e Sabath chegaram por volta das oito da manhã. Bateram à porta de lá saiu uma mulher com cara de poucos amigos, que devia ter sido acordada em hora imprópria pelos piratas:
- Não atendemos de manhã, rapazes. E, se forem cobradores...
- Diga a Madame Sinclaire que capitão Smy precisa muito falar com ela - disse zaragoza.
Neste momento, a mulher esfregou os olhos e reconheceu Pierre, filho de Sinclaire:
- Pierre! É você! Vamos, entrem! Desculpem minha desatenção. Querem alguma coisa?
- Apenas falar com Madame Sinclaire.
E a mulher subiu correndo as escadas, enquanto Pierre olhava tudo à sua volta. Sinclaire apareceu após alguns minutos, com passos apressados:
- Bom dia, bom dia! Capitão Smy, que honra revê-lo! Pierre, meu filho! Como está?
- Tudo bem, mãe.
- Smy, esse garoto lhe deu trabalho? Veio develvê-lo?
- De maneira alguma, madame. Queremos apenas algumas informações que irão nos ajudar a resolver um problema. Como a questão era meio grave, nem mesmo fiz a primeira parte de nosso plano que era conversar com homens no porto. Achamos melhor vir direto à senhora. Sabes alguma coisa de Anyta D’Antaire?
- Oh! Já souberam! Por Deus!
- Vi que não me enganei em vir direto à sua casa. O que sabe dela?
- Anyta está sendo caçada pelas cruzadas a mando da igreja. Desde que decretou-se a caça às bruxas que não a vejo.
- Então, é verdade... Mas ela é uma bruxa? - perguntou Sabath.
- Isso não importa agora! - gritou Smy - Madame, onde acha que ela possa estar escondida?
- Talvez na floresta, mas não há como saber. Mas é preciso que a encontrem, pois só esta semana, já queimaram duas mulheres suspeitas de bruxaria. Imaginem o que fariam com Anyta, que estava conduzindo os trabalhos.
- Ela era mesmo a “chefe” das bruxas? - perguntou Smy.
- Eu não sei bem como foi. Todas as tardes ela frequentava uma casa, trazia livros. Parece que outras mulheres começaram a se organizar e a seita começou a crescer. Quando a igreja soube, não gostou nada.
- E o que elas faziam? Rituais? Sacrifícios?
- Eu nunca soube de nada. Na verdade, Anyta nunca se disse bruxa. Apenas seguiam uma religião diferente, que acreditavam em forças da natureza. Isso é só o que sei. Mas nunca falou em magia ou coisa parecida. Para mim, tudo não passa de um grande engano.
- Bom, era o que precisávamos saber. Madame - disse Smy - estou aqui na França com a missão de resgatar Anyta e não irei descançar enquanto não encontrá-la. Quanto a Pierre, ele tem feito um ótimo trabalho e, se for de sua vontade, quero que ele continue em minha tripulação.
- Será uma honra, capitão. Será uma honra.
- Vamos, homens.
Saíram pela porta às pressas. Smy decidiu que iriam à floresta. Conhecia bem os caminhos desde pequeno. Mas Sacrée Gardien tinha mudado bastante desde que fora para a Inglaterra e se perdeu da mãe. Reviraram uma grande área, mas nem sinal de Anyta. Foi então que barulhos de passos amassando gravetos os deteve por um segundo. Olharam para a clareira e viram quatro homens. Dois vestiam uma espécie de batina e outros dois, com tochas nas mãos vestiam roupas pretas. Os piratas abaixaram-se atrás dos arbustos enquanto um dos padres reascendia a tocha. Um deles perguntou ao outro se faltava muito para chegar:
- Não - respondeu o padre - a casa fica logo ali. Mas sinceramente não creio que tenham se escondido ali. Seria muito óbvio. Até porque, pelo que me consta, Anyta morava ali e ousava dizer que trabalhava...
- Deus santíssimo! Como se vender o corpo fosse trabalho! - respondeu o outro.
- Mas se a pista de frei Agostino estiver certa, em pouco tempo a teremos nas mãos.
- Em nome da Santa Madre Igreja! E ela queimará na fogueira santa.
- Amém.
E Smy e os homens viram quando os padres dobraram para o lado da casa de Madame Sinclaire. Sabath propôs que voltassem, mas Smy sabendo que Anyta não estava lá, não achou que fossem fazer alguma coisa à Sinclaire.
- Ouviram? - perguntou Smy - Esse tal frei Agostino sabe de alguma coisa. Então, vamos precisar de dois artifícios: uma batina e um pirata que saiba se passar por padre. Vamos arrancar umas palavras desse Agostino.
- Amém - completou Pierre.

Piratas e Bruxas - Parte II


No caminho a Gardien

No primeiro dia de viagem rumo à França, Smy chamou Beck Jeff e Zaragoza para traçarem os planos. Beck Jeff - como era de se esperar - reprovava a viagem, mas como gostava de qualquer tipo de confusão, entrou na brincadeira.
- É que me parece estranho lutar contra padres... O que pensa em fazer, Smy? Matar o Papa? - perguntou Beck Jeff.
- Ora! cabeça-de-bigorna! O Papa está em Roma, enchendo a pança. Não é o Papa que está caçando as bruxas, mas seus homens. Contra a igreja e os padres não faremos nada. O plano é apenas pegarmos Anyta antes que eles a encontrem e deixá-la em segurança.
- No Zeppelin?
- Não. Jamais teríamos uma mulher a bordo. Não como integrante. Deixaremos Anyta em um país qualquer longe dessa confusão toda. Até que saibamos exatamente o que está acontecendo, não podemos planejar muita coisa. O que sei é o seguinte: que o primeiro passo é aportar em uma cidadezinha próxima à Sacrée Gardien. Conversamos com alguns moradores da vila e descobrimos se estão mesmo caçando as bruxas e Anyta. Ainda por terra, vamos à casa de Madame Sinclaire e perguntaremos por Anyta, para saber onde ela poderia ter se escondido.
- E depois saímos a procurar... - completou sem vontade Beck Jeff.
- Sim.
- Sem lutar. Sem mesmo uma espada... E, depois, que graça teria mesmo se matássemos padres? Ora! São padres!
- Beck Jeff! Por mil tubarões! Você está aqui para ajudar ou para quê? Eu preciso de você ao meu lado e não contra mim! Se precisar, mataremos padres! E não pense você que eles são bonzinhos! Quando estava perdido no porto inglês - pelos meus 12 anos - um padre só não me fez de mulherzinha porque eu era esperto. Prometeu me deixar ficar na sua casa, todo bonzinho, e à noite quando deitou na minha cama, só não o matei porque não tive um meio. Se for preciso, matamos os padres. Mas a questão não é essa. Não quero uma guerra contra a igreja. A menos que seja preciso.
- Smy! Você não está entendendo! Olhe tudo que você está fazendo: está indo a um país, sem ter certeza se há mesmo caça às bruxas. Está indo atrás de uma mulher que nem mesmo sabe se é mesmo bruxa. Está envolvendo toda a tripulação em um plano maluco! E por um assunto pessoal!
- Ah, então é esse o problema? Está bravo porque estou usando a tripulação e o barco para um fim pessoal!
- E não era para estar? Não é incoerente? Se cada namorada sua que se meter em confusão nós tivermos de nos arriscar, em menos de um ano afundamos este navio, Smy!
- Seu cabeça-de-bigorna! Mulheres inocentes irão morrer! A igreja está matando como em uma guerra e você vem dizer que eu só penso no meu umbigo? Quem é o egoísta aqui, caro Beck Jeff? Então, você quer continuar se enchendo de rum no Caribe enquanto na França pessoas morrem?
- Quando foi que você virou o salvador do mundo? Acho que perdi este capítulo! Você não ligaria para nenhuma dessa tais bruxas se entre elas não estivesse Anyta! Piratas não são salvadores do mundo, Smy! Nós saqueamos apenas.
- Pois eu sou o capitão deste navio, senhor Beck Jeff ,e digo que vamos realizar este plano. Não se preocupe em fazer parte dele. Se quiser, pule no mar e volte ao Caribe. Me contenta apenas que não nos atrapalhe. Saia da cabine e chame Pierre. Talvez um francês entenda a minha língua. E Beck Jeff saiu pela porta da cabine sem dizer uma palavra.

8 de fev de 2011

Piratas e Bruxas - Parte I

Jornal Francês

O Zeppelin ancorou no porto francês ainda no início da manhã. Uma névoa branca quase escondia os castelos e todos pareciam se movimentar lentamente. “Detesto vento”, disse Donatello.  Estavam em uma pequena cidadezinha, uma das poucas que tinha um porto naquela região. Smy disse aos homens que abastecessem o navio com muita água, rum e comida, pois não sabiam quanto tempo depois atracariam de novo.
Ir de volta para a França não era vontade de Smy. E os homens também preferiam continuar nas águas quentes do Caribe, aproveitando o tesouro asteca e saqueando um ou outro navio inglês. Mas foi em uma noite quente, enquanto Smy se preparava para deitar-se, que Zaragoza entrou na cabine do capitão e o fez mudar de planos. Mesmo com os olhos iluminados ainda pela felicidade de estar chovendo, o espanhol não conseguiu disfarçar a preocupação.
- Capitán!
- Hable, Zaragoza. Para alguma coisa lhe fazer sair do leme, deve ser bem séria.
- Estava na taverna, capitán. Y un francês trazia consigo un periódico muy interessante de sua ciudad.
- Novidades da velha França. E o que dizia no jornal?
- Que devemos ir para a França.
- Ir para a França? Por mil enguias! O que está acontecendo lá que te fez voltar ao barco, atrapalhar meu sono e propor uma ideia tão trabalhosa?
- Acontece, capitán, que el Papa declarou guerra às bruxas. Ou lo que elle pensa ser bruxas, como feiticeiras e todo tipo de mujer que no está na igreja e é sábia.
- E que tenho eu com as bruxas francesas?
- El Papa está queimando todas ellas en la fogueira.
- Não sou chegado a churrasco.
- Pero... - e nessa hora o rosto de Zaragoza se contraiu - una das mais procuradas... E que será certamente muerta con requintes de crueldad... É una que se llama... D’Antaire... Ou mejor... Anyta D’Antaire...
- Anyta? Anyta D’Antaire? Me traga este jornal! Tens certeza que é ela?
- Yo penso que no hay muchas Anytas D’Antaire na ciudad de Sacrée Gardien...
- Pois acorde os homens. Me traga este jornal - nem que para isso mate o dono - e prepare-se para ir à França. Temos pouco tempo, Zaragoza.
***

Sabath viu a ilha ficar distante. Sabia que a taverna continuaria ali, e que Alanie talvez ainda estivesse nela quando o Zeppelin ancorasse novamente no Caribe. Não doía menos afastar-se dela. Era uma dor diferente. Mas, com certeza, uma dor bem diferente da que levava Smy para as águas geladas do inverno europeu.
Anyta tinha sido a primeira namorada do capitão. E, da última vez que havia voltado à França, passou na casa de Madame Sinclaire, onde Anyta trabalhou a vida inteira. Assim como ele, Anyta iniciou vários rapazes franceses e estrangeiros. A casa de Sinclaire era ponto obrigatório dos viajantes que passassem por Sacrée Gardien. Quando viu Anyta pela última vez, uma quantidade de objetos no quarto da prostituta lhe chamou atenção, mas não deu muita importância. Livros de magia, imagens, algumas ervas...
Mas nada que já não tenha visto em suas passagens pelo mundo. Anyta não tinha nenhum jeito de bruxa. Até porque Smy não acreditava em bruxas. Nem mesmo os padres acreditavam nelas, mas eles temiam do poder de persuasão das feiticeiras entre o povo. A igreja, sempre com medo de perder o grande poder que possuía, precisava acabar com esses tipos de “ameaças”. Mas Smy jamais conseguiria ver Anyta como uma ameaça nem mesmo para um camundongo. Por isso, mesmo em alto mar, se perguntava se era possível mesmo que o Papa quisesse queimar sua adorada garota. Mas de uma coisa Smy tinha certeza: de que a igreja tinha poder e meios de queimar quem quer que a afrontasse. E, se de alguma forma Anyta afrontou a igreja, ela estava mesmo com os dias contados. E, a cada hora, Smy batia na cabine de Zaragoza para saber em quanto tempo chegariam à frança.

16 de dez de 2010

Entre duas ilhas - parte IV

Então, é isso


Depois de quase uma hora conversando com Alanie na beira da praia, Sabath colocou os pés de volta no Zeppelin. Ainda era cedo da tarde e o sol estava fervendo no Caribe. Ele ocupou-se de mil coisas e quando viu já vinha a lua no céu. Smy estranhou a chegada de Sabath, pois pensou que ele passaria o dia fora. Quando todos estavam nas redes e Sabath subiu para seu posto de guarda no mastro do navio, Ringo foi atrás dele. Sabath dispensou Lucky, que desceu correndo a escada de cordas.
***

Lá de cima, ele via as ilhas que montavam o arquipélago. Ringo sentou-se ao lado de Sabath sem dizer palavra. Até que não agüentou-se de curiosidade:
- Você passeou pela cidade. Está melhor desde nossa última conversa.
- Nós falamos hoje.
- Você e Alanie?
- Sim. Eu disse a ela tudo, Ringo. Disse tudo que queria dizer. E, apesar de meu mudo ter naufragado nesse mesmo mar, acho que estou melhor.
- O que ela lhe disse? Você falou do tesouro asteca?
- Ringo! Pensa que eu compraria uma mulher?
- Comigo sempre foi assim. Entenda que não tenho a sua beleza.
- Ela disse que casou-se. Com ela mesma.
- Ora! Que diabos quer dizer isso?
- Ela... Continua linda, sabe? Com as mesmas mãos impacientes, os olhos diretos, o sorriso desconsertado, mas malicioso. Disse o que o pai morreu pouco depois que foram embora, cuidou dos irmãos... E depois se casou com um pescador. Não contou que fim ele deu, mas não estão mais juntos. Disse que hoje é tarde, que eu devia seguir meu caminho e ela seguiria o caminho dela. Era tudo que eu nunca quis ouvir. Porque antes havia um motivo, eu não tinha como dar a ela uma vida segura. Hoje, eu posso pegar minha parte no tesouro e ficar com ela.
- Você disse a ela que é pirata?
- Disse. Ela não demonstrou surpresa. Já deve ter visto de tudo, Ringo. Alanie não é uma dessas mulheres tolas, inocentes. Mas ela disse que um amor não se reconstrói assim, que ela precisaria de tempo, de muito tempo talvez. E vá que o amor não voltasse e eu já tivesse largado tudo. Disse que eu a culparia depois. Ela não me ama e isso é seu principal argumento. Ela não me ama, Ringo. Resume-se a isso.
- Bom, ao menos, agora você sabe.
- Era tão estranho. Houve dias em que eu tinha a impressão de que ela estava tão perto. Que tudo me fazia Lembrá-la. Eu sentia uma saudade maior, ficava a fazer planos, queria contar as coisas que fiz durante a semana, saber o que ela tinha feito. Era uma vontade de estar junto, de participar da vida daquela mulher. Mas havia essa dúvida, esse “não saber onde está”, “não saber se ainda vive”. Eu não sabia se ela tinha outro alguém. Hoje, eu sei onde ela está e sei que não há condições. Antes, havia acabado sem que quiséssemos, por outros motivos. Dessa vez, foi por que ela quis. Não vou dizer que dói menos. Talvez doa até mais. Eu a amo, Ringo. Ela reapareceu e me fez lembrar disso.
Houve um longo silêncio.
- Haverá outra mulher. Ou muitas outras.
- Já tive muitas mulheres, Ringo. E haverá com certeza muitas outras. Mas mulheres são mulheres. E Alanie é Alanie. De resto, ainda vivo. Sou um pirata e tenho algum dinheiro. Não se pode ter tudo que deseja. Talvez seja essa a lógica.
- E o que vai fazer agora então?
- Eu vou ficar por aqui. Fico de guarda até amanhecer, como sempre fiz.
- Posso parecer egoísta, mas estou feliz por você não nos deixar.
E Ringo desceu as escadas e foi dormir no compartimento das redes.
***

Sabath passou a noite pensando e decidiu que iria mudar. No outro dia, ficou perto dos amigos, contou histórias. Participou intensamente das decisões e das atividades no navio. Contava cada dia como uma vitória. Talvez não esquecesse, mas seu empenho era para fazer doer menos. E, agora, ele estava contente em, pelo menos, saber onde estava o ponto final.

15 de dez de 2010

Entre duas ilhas - parte III

A conversa

Após conversar com Ringo, Sabath tomou a decisão de falar com Alanie. Independente do que acontecesse – e era o medo de se machucar que impedia Sabath – aquele silêncio em que estava era pior do que tudo. O melhor era falar, era ouvir. Uma história só acaba quando os escritores colocam o ponto final. E era isso que Antônio Sabath pretendia. Saber em que parágrafo estava o ponto.
Pediu dispensa a Smy por um dia e foi até a taverna. Smy achou estranho, pois Sabath nunca se ausentava do trabalho. Entretanto, como o caribenho disse tratar-se de assuntos pessoais, o capitão o liberou por algumas horas. Afinal, estavam ancorados mesmo.
Quando chegou à taverna, Sabath estranhou. Era diferente ir àquele lugar durante o dia. Estava vazio, com as janelas fechadas, dava mesmo a impressão de lugar abandonado. Sabia que as taverneiras chegavam duas horas antes e aguardava próximo à porta. Chegou uma das garçonetes e ele perguntou por Alanie.
- Está de folga – foi a resposta da mulher – Não virá hoje.
- E onde a encontro?
- Talvez esteja na casa dela, em Abdalim.
Abdalim não era muito longe, mas Sabath achou inoportuno ir até outro povoado sem mesmo saber em que rua ficava a casa. Retornou para a praia e sentou-se nas pedras. Tempo depois, Alanie adentrou na taverna e sua colega surpreendeu-se:
- Você hoje?
- Esqueci de avisar. Troquei minha folga com Nya.
- Pobre rapaz então...
- Como?
- Um rapaz esteve aqui lhe procurando. E eu disse que você devia estar em Adbalim.
- Quem me procuraria?
- Um rapaz alto, forte, moreno... Parecia um pirata do Capitão de Um Olho Só.
- Deixe de brincadeiras!
- Mas o pior é que era. Bom, já que está aqui, compre mais pimenta.
***

Depois de comprar a pimenta, Alanie voltou pela praia. E lá ainda estava Sabath, sentado nas pedras. Ela o viu de longe, mas não reconheceu. Ele a viu de longe, mas não acreditou que poderia ser. Quando aproximou-se, ele pôs-se de pé e segurou o braço de Alanie:
- Não tenha medo. Sou eu.
- Olá. É você.
- Estive na taverna a lhe procurar, mas disseram que estava de folga.
- Então foi você. Tuya me avisou. Acontece que eu havia trocado minha folga com Nya. Queria falar-me?
- Sim. Está com pressa?
- Preciso levar essas pimentas.
- Queria apenas... Saber como está.
- Bem.
- Mora aqui faz tempo?
- Um bom tempo.
- Seu pai?
- Deus o tenha. Mas viveu muito bem.
- Casou-se?
- Não, morreu viúvo.
- Falo de você.
- Casei-me. Comigo mesma. Por que tantas perguntas?
- Incomoda-se com minha presença?
- Apenas estranho tantas perguntas – e nesse momento um sorriso desconsertado abriu-se no rosto dela.
- É que... Eu nunca a esqueci. E só... Só queria que soubesse. Eu estou aqui e parto daqui alguns dias. Mas queria saber de você o que sente por mim... Se sente...
- Antônio. Faz tanto tempo. Muito me admira – e agora foi Sabath quem sorriu desconsertado.
- Eu trabalho com comércio. Vendemos, compramos. Bom, na verdade, saqueamos. Somos piratas. Sim, sou um pirata. Não mentiria para você. Mas largaria tudo. Tenho um bom dinheiro e largaria tudo. O que lhe parece?
E Alanie começou a rir porque saiu para comprar pimentas e voltou para taverna com a oferta de um tesouro. Um tesouro asteca.

14 de dez de 2010

Entre duas ilhas - parte II

Sobre coisa nenhuma

Então, Sabath não voltou para a mesa da taverna. A chuva lá fora não o impediu de remar com o bote até o Zeppelin. Quando entrou no navio, Donatello estava saindo da cabine de Zaragoza, indo em direção ao compartimento das redes. Sabath deu uma corrida pelo convés e também entrou pela porta.
- Sabe o que mais gosto de fazer nesses dias de chuva? – perguntou e já respondeu Donatello – Pois é dormir. Dormir muito, meu caro. Muito mais do que estar com mulheres, como devem estar fazendo nossos companheiros.
- A maioria diz que esteve com mulheres, quando, na verdade, esteve rodeado de homens barbudos disputando quem conta mais mentiras – respondeu Sabath e seu olhar estava perdido pela escotilha do navio, onde as gotas caíam.
- Por que voltou cedo? Mal anoiteceu.
- Terminou a minha noite, Done. Se não se importa, vou dormir. Até amanhã.
Sabath virou para o lado e tentou dormir. O mesmo fez Donatello. Sabath havia levado um cruzado de direita. Ver Alanie novamente, o deixou triste, terrivelmente triste. Ele que imaginou tantas vezes aquele momento, sentiu-se impotente, incomodado, até com um misto de raiva. Ora! Por que ela tinha de aparecer? Por que tinha de aparecer logo agora? Ele ainda a amava, mas estava se recuperando. E, de repente, ela aparece na sua frente, como por encanto, e o deixa confuso, perdido, sem saber pesos e medidas.
***

Ringo dormiu na taverna e foi enxotado na manhã seguinte. Quando adentrou no barco, Sabath já estava de guarda, no mastro do Zeppelin. Como de costume, o norueguês subiu a escada de cordas para contar suas histórias ao amigo.
- Pois era um tubarão vegetariano – dizia a certa altura, enquanto Sabath olhava as ondas – O que você tem? – perguntou Ringo.
- Você nem queira saber.
- Já sei. Aquela garota. Ainda não esqueceu? Sabath! Vou te jogar aos tubarões!
- Eu a vi.
- Como? Quando? Você falou com ela?
- Você viu a garçonete da cantina, não viu?
- Por mil enguias! Era ela! E você? Vai voltar correndo para ela?
Sabath tentou desviar o olhar, mas uma lágrima acabou escapando. Ringo não esperava uma reação daquelas. Pelo menos, não de um pirata. Pelo menos, não de Sabath. E, pela primeira vez, Ringo não se mostrou um maluco, um contador de história. Ringo permaneceu em silêncio, não fez piada. Viu que o amigo estava realmente sendo sincero, que a coisa era séria. E ficou sem jeito, sem saber o que dizer. Assobiou para chamar seu papagaio, mas este – mais preguiçoso do que ele – dormia tranqüilo. Por fim, pôs a mão no ombro de Sabath.
- O que você pensa em fazer?
- Eu não sei. Era tão... Era tão difícil antes, sem saber onde ela estava. E... E agora eu sei onde ela está, mas... Veja, Ringo, eu sei que ela está lá e, no entanto, eu estou aqui. Estou me sentindo um fraco, mas algo me impede de voltar lá e eu não sei bem o que é...
- Certo. Bom, você sabe que ela está lá. Quando decidir o que fazer, ela ainda vai estar lá. Certo?
- Certo. Você tem razão. Não tinha pensado nisso. Eu tenho tanto a dizer a ela, mas... Antes, preciso pensar no que fazer, no que quero fazer. E no que posso fazer. Não sei o que ela sente, não falamos. Apenas nos cumprimentamos. Ringo, fiquei tão perdido na hora que nem lembro direito as palavras que usei. E eu não estava bêbado.
- Você vai decidir o que vai fazer e eu te ajudo no que quiser.
- Pensei que ia me chamar de maluco outra vez.
- Eu continuo achando uma maluquice. Mas, entenda, se voltar para ela te faz feliz, eu quero vê-lo feliz. Não podemos ter “meio Sabath” nesse navio. Você precisa estar aqui por completo. Eu continuo achando que você ama a saudade que sente dela, que ela não vale esse esforço. Mas, veja bem, eu nunca amei. Não posso julgar. Nem sei o que é isso que você está sentindo. Mas se essa força foi capaz de fazê-lo chorar – e chorar em frente a mim – não sou eu quem vai duvidar do peso desse sentimento. E, naquela manhã, Ringo não foi dormir. Ficou conversando com Sabath sobre coisa nenhuma.

13 de dez de 2010

Entre duas ilhas - parte I

Na taverna

O barco passou devagar ao lado das pedras. Ilhas do Caribe sempre acabavam sendo a rota, apesar de Smy preferir a Europa. Entretanto, seus homens gostavam das águas quentes, de enxergar os tubarões sob a água e das mulheres, afinal de contas. Sabath esticou a corda e Pierre veio ajudá-lo.
- Depois que consertou aquela escotilha, você ficou muito confiante.
- Estou com um grande problema, Sabath – disse o garoto – Estou começando a gostar de ser pirata.
- Agora, é tarde – disse Lenn, que ouvia a conversa.

***
Quando Sabath desceu do barco, no fim da tarde, o céu se preparava para chuva. E todos concordavam que era um crime chover em uma ilha tão bonita. Ora, no Caribe, nunca devia chover. Zaragoza estava contente, gostava de chuva. Adorava pilotar o barco na chuva e, principalmente, em tempestades. Na época em que estava na Marinha Espanhola, viveu muitas horas difíceis, mas algum sentimento estranho o deixava feliz em dias de chuva, em dias de trovões, de céu escuro. Zaragoza gostava da luz, do sol, mas adorava a chuva. E não deixou de esconder o sorriso quando os primeiros pingos começaram a cair.
Sabath pediu mais rum na taverna e ficou feliz por estar em terra firme. Ringo, ao seu lado, contava mil histórias a outros dois marinheiros que estavam próximos ao balcão.
- E, então, o tubarão tirou um fininho assim da minha perna. Eu quebrei a garrafa na cabeça dele. E, por isso, eu digo, amigos: temos que ter sempre uma garrafa de rum. Nunca se sabe quando vamos precisar quebrá-la na cabeça de alguém.
Os dois mais riam de Ringo do que da história. Pois aquele garoto ruivo só podia ou estar bêbado – o que de fato costumeiramente estava – ou ser louco – o que de fato quase todos achavam. Mas Ringo nem se quer dava bola e continuava a contar bobagens.
Quando Sabath levantou-se, para ir até a porta conferir a chuva que fazia tremer o teto da taverna, uma mulher entrava pela porta que dava para a cozinha. Ele apenas viu o vulto e continuou a andar em direção à rua. Perto da porta, a mão da mulher o segurou pelo colete:
- Não pense em sair sem pagar, rapaz.
E, quando Sabath virou-se, achando muito engraçado aquela petulância da garçonete, viu naqueles olhos algo que o fez estremecer dos pés à cabeça, porque seria bem mais fácil acreditar nas mentiras de Ringo do que naquela imagem. Ficou transtornado. Primeiro, por ser quem era e, depois, por ter de explicar que apenas queria ver a chuva. Sem saber o que dizer, tirou do bolso algumas notas e entregou a ela.
- Eu só...
- Sabath?
Alanie o conheceu no mesmo momento. E Sabath tinha certeza porque ela também levou um susto tão grande quanto o dele. Ela então pegou o dinheiro sem nem mesmo contar para ver se estava certo ou se havia troco. E Sabath, que sonhou por tantas noites com aquele momento, Sabath que tinha lutado contra ingleses, franceses, portugueses... O mesmo Sabath que ajudou a encontrar o Tesouro Asteca estava paralisado, sem ação, como se um tubarão de cinco metros estivesse à sua frente, como se não houvesse saída. E seu coração ficou estranho, sentiu uma dor no estômago. Muito rum, pesou ele.
- Está aqui então? – e logo já se achou um tolo por fazer tal pergunta.
- Sim. Trabalho aqui.
- Entenda que eu... Não ia sair. Eu apenas...
- Não se preocupe. É que Harris me mataria se alguém saísse sem pagar. Sabe, acontece muito.
E os dois ficaram parados, em silêncio. Sabath em frente ao tubarão de cinco metros, enquanto a chuva caía.